Deus - Uma biografia
Pesquisadores revelam que Javé, o grande personagem da Bíblia, não foi visto sempre como Deus único. Antes do Livro Sagrado, ele era só mais um entre muitas divindades. Saiba como Deus conquistou seu espaço no céu. E na Terra
Deus criou o Universo.
Deus está em todos os lugares.
Deus é a força que nos une.
Cada sociedade vê a figura do Criador à sua maneira. Cada indivíduo,
até. Para Einstein, Ele era as leis que governam o tempo e o espaço - a
natureza em sua acepção mais profunda. Para os ateus, Deus é uma ilusão.
Para o papa Bento 16, é o amor, a caridade. "Quem ama habita Deus; ao
mesmo tempo, Deus habita quem ama", escreveu em sua primeira encíclica.
Pontos de vista à parte, toda cultura humana já teve seu Deus. Seus
deuses, na maioria dos casos: seres divinos que interagiam entre si em
mitologias de enredo farto, recheadas de brigas, lágrimas,
reconciliações. Os deuses eram humanos.
Mas isso mudou. A imagem divina que se consolidou é bem diferente. Deus
ganhou letra maiúscula na cultura ocidental. Os panteões divinos
acabaram. Deus tornou-se único. É o Deus da Bíblia, Javé, o criador da
luz e da humanidade. O pai de Jesus. Essa concepção, que hoje parece
eterna, de tanto que a conhecemos, não nasceu pronta. Ela é fruto de
fatos históricos que aconteceram antes de a Bíblia ter sido escrita. O
próprio Javé já foi uma divindade entre muitas. Fez parte de um panteão
do qual não era nem o chefe. O fato de ele ter se tornado o Deus
supremo, então, é marcante: se fosse entre os deuses gregos, seria como
se uma divindade de baixo escalão, como o Cupido, tivesse ascendido a
uma posição maior que a de Zeus É essa história que vamos contar aqui. A
história de Javé, a figura que começou como um pequeno deus do deserto e
depois moldaria a forma como cada um de nós entende a ideia de Deus,
não importando quem ou o que Deus seja para você.
Criança
No princípio, Ele não sabia falar. Só chorava, grunhia e balbuciava.
Deus era uma criança. Uma não, muitas: um deus era a chuva, outro deus,
o Sol, mais outro, o trovão... Os deuses eram as forças por trás de uma
natureza inexplicável para os primeiros humanos da Terra. Facetas de
divindades borbulhavam em cachoeiras, galopavam com os cavalos
selvagens, voavam com o vento, escondiam-se em cada rochedo, bosque ou
duna do deserto. E do deserto veio a que daria origem ao Deus para
valer.
Deuses nasceram do pôquer. A crença em divindades provavelmente vem da
capacidade humana de detectar as intenções das outras pessoas. Somos
muito bons nisso desde que surgimos, há 200 mil anos, e precisamos ser
mesmo, porque o Homo sapiens sempre levou a vida social mais complicada
do reino animal, sempre em comunidades cheias de intrigas, fingimentos,
traições. Saber o que se passa na cabeça do outro era questão de
sobrevivência - e até certo ponto ainda é.
E a melhor maneira de tentar se antecipar a um adversário nos jogos
mentais do dia a dia é imaginar as intenções dele: "O que será que ele
pensa que eu estou pensando?" Nosso cérebro é uma máquina de pôquer.
Pesquisadores como o antropólogo francês Pascal Boyer defendem que esse
sistema de detecção de intenções pode acabar aplicado a coisas que não
têm intenções de nenhum tipo - como a chuva, ou o Sol. A ideia de que há
espíritos de toda sorte da natureza seria, assim, um efeito colateral
do nosso sistema de detecção de mentes, tão hiperativo.
Por esse ponto de vista, a espiritualidade faz parte dos nossos
instintos. É quase tão natural acreditar em divindades quanto comer ou
dormir.
Cada fenômeno da natureza, então, representava as intenções de alguma
divindade. É como ainda acontece nas tribos de caçadores-coletores de
hoje. Entre os índios tupis, os trovões são a raiva do deus Tupã. E fim
de papo.
Obras de arte de mais de 30 mil anos atrás dão outra pista sobre essa
espiri-tualidade primitiva - que podemos chamar de "infância de Deus"
(no caso, dos deuses). Elas mostram seres que misturam características
humanas e animais - sujeitos com cabeça de leão ou de rena e corpo de
gente, por exemplo.
Acredita-se que essas criaturas híbridas representem um tipo de crença
que ainda é comum nas tribos indígenas: a de que não haveria separação
rígida entre o mundo dos humanos, o dos animais e o dos espíritos. Seria
possível transitar entre essas esferas se você possuísse o conhecimento
correto, e, em tese, qualquer falecido, seja pessoa, seja bicho, pode
ter um papel parecido com o que associamos normalmente a um deus.
Os deuses abandonam de vez as feições animais quando os bichos se tornam
menos importantes no nosso cotidiano. Foi precisamente o que aconteceu
quando a agricultura foi criada, há 10 mil anos, no Oriente Médio.
Graças a ela, montamos as primeiras cidades. E a nossa espiritualidade
progrediria junto: acabaria bem mais centrada nas pessoas que na
natureza selvagem.
Há sinais de que ancestrais mortos eram as grandes entidades com status
divino nessas primeiras cidades. Um exemplo arqueológico vem de
escavações em Jericó, uma das mais antigas aglomerações humanas, que
hoje fica no território palestino da Cisjordânia. Os habitantes de
Jericó enterravam o corpo de seus mortos, mas guardavam o crânio, que
era recoberto com camadas de gesso e tinta, simulando o rosto humano.
Assim preparada, a caveira talvez servisse de oráculo doméstico - uma
espécie de deus particular para cada família.
Os artesãos de crânios de Jericó não tinham escrita - aliás, passariam
mais de 5 mil anos até que essa tecnologia fosse inventada. Quando isso
finalmente aconteceu, em torno do ano 2000 a.C., os deus ficaram bem
mais sofisticados.
Entraram em cena criaturas ao estilo dos habitantes do Olimpo na
mitologia grega. Em parte, alguns deles até eram mesmo personificações
das forças da natureza, mas agora eles ganhavam personalidades e
biografias complexas.
É aí que está a origem do grande personagem desta história: Javé, uma
divindade que provavelmente começou como um deus menor, cultuado por
nômades. Bem antes de a Bíblia ser escrita.
Cabeça de leão
Estátuas e pinturas de povos caçadores, que viviam nas cavernas da
Europa há 30 mil anos, mostram figuras que misturam formas de homens e
de animais. Tudo indica que esses foram os primeiros deuses a habitar a
mente humana.
Jovem
O rapaz era uma divindade dos desertos do sul. Junto com seus poucos
súditos, chegaria à pulsante Canãa, domínio do deus El, o altíssimo. Ao
lado do soberano, a mãe de divindades e homens, Asherah, senhora de
tudo o que é fértil, e seu sucessor, Baal, o deus que dava chuvas
àquelas paisagens àridas. Tudo na santa paz. Eles só não imaginavam que
Javé tramava a destruição deles.
Ele começou de baixo. Era só mais um deus entre vários outros de sua
região. Só que na Bíblia Javé é identificado como o Deus único. Hoje,
cogitar a existência de outras divindades que teriam convivido com o
Senhor da Bíblia é um absurdo do ponto de vista religioso. Mas não do
ponto de vista científico. Pesquisadores de várias áreas - arqueólogos,
linguistas, teólogos - estão encontrando pistas sobre uma provável
"vida pregressa" de Javé. Uma vida mitológica que ele teve antes de seu
nome ir parar na Bíblia como o da entidade que criou tudo.
Onde pesquisar isso? A própria Bíblia é uma fonte. O Livro Sagrado não
foi feito de uma vez. Trata-se de uma coleção de textos escritos ao
longo de séculos. O Pentateuco, os 5 primeiros livros da Bíblia, foi
finalizado por volta de 550 a.C. Mas há textos ali de 1000 a.C., ou de
antes. E nada disso foi editado em ordem cronológica - em grande parte, a
Bíblia é uma junção de textos independentes, cada um escrito em tempos e
realidades diferentes.
Como saber a que tempo e a que realidade cada um pertence? Pela
linguagem. Pesquisadores analisam as expressões do texto original, em
hebraico, e vão comparando com a de documentos encontrados em escavações
arqueológicas, cuja datação é fácil de determinar. Com esse método,
chegaram a uma descoberta reveladora. Alguns poemas da Bíblia dão a
entender que Javé era uma divindade de lugares chamados Teiman ou Paran -
dizendo literalmente que o deus veio dessas regiões. E esses textos
estão justamente entre os mais antigos - se a língua do livro fosse o
português moderno, eles estariam mais para Camões.
Teiman e Paran eram lugares desérticos fora das fronteiras onde viviam
os homens que escreveram a Bíblia. Não se sabe exatamente que regiões
eram essas, já que os nomes dos territórios vão mudando ao longo dos
séculos. "Mas arqueólogos supõem que essa região seja no noroeste da
atual Arábia Saudita", diz Mark Smith, professor de estudos bíblicos da
Universidade de Nova York. E isso diz muito.
Os autores dos primeiros textos da Bíblia viviam na antiga Canaã - uma
região do Oriente Médio onde hoje estão Israel, os territórios
palestinos e partes da Síria e do Líbano. Ali se formaram algumas das
primeiras civilizações da história, há 10 mil anos. E por volta de 1000
a.C. já era um território disputado (como nunca deixou de ser, por
sinal). Estava dividido numa miríade de tribos, as dos israelitas, a dos
hititas, a dos jebedeus...
Apesar das rivalidades, todas tinham culturas parecidas. Reverenciavam o
mesmo panteão de deuses, por exemplo. Mas Javé, pelo jeito, não era um
deles. Teria sido importado das áreas mais desérticas do sul.
Outra evidência disso é a associação de seu nome com os chamados shasu.
Shasu é um termo egípcio que significa "nômade" ou "beduíno". Algumas
inscrições egípcias mencionam um "Javé dos Shasu".
Uma possibilidade, então, é que nômades do deserto teriam se incorporado
às tribos israelitas, trazendo o novo deus com eles. Essa divindade se
embrenharia no meio da grande mitologia desse povo: o panteão de deuses
cananeus. Mas quem eram essas divindades? As melhores pistas a esse
respeito vêm de Ugarit, uma antiga cidade encontrada durante escavações
arqueológicas na atual Síria. Ela foi destruída por invasores em 1200
a.C., quando os israelitas ainda eram um povo em formação. As inscrições
encontradas ali, então, servem como uma cápsula do tempo. Revelam o
contexto cultural em que nasceu a mitologia israelita, mostra como era a
mitologia dos antepassados dos escritores da Bíblia. E os deuses em que
eles acreditavam seriam fundamentais para a biografia de Javé. O
panteão de Ugarit é bem grandinho, mas algumas figuras se destacam. Há o
pai dos deuses e dos homens, o idoso, bondoso e barbudo El; sua esposa,
Asherah, deusa da vegetação e da fertilidade; a filha dos dois, Anat,
feroz deusa do amor; e o filho adotivo do casal, Baal, deus da guerra e
da tempestade que morre, ressuscita e derrota as divindades malignas
Yamm (o Mar) e Mot (a Morte).
Muitos estudiosos especulam que as tribos is-raelitas originalmente
tinham El como seu deus supremo. Afinal, o nome do povo bíblico também
termina com o elemento -el. "Esse tipo de nome próprio, conhecido como
teofórico (‘portador de um deus’, em grego), costuma dar pistas sobre o
ente divino que o dono do nome venera", diz Airton José da Silva,
professor de Antigo Testamento da Arquidiocese de Ribeirão Preto.
Mas os indícios a respeito de El vão além da nomenclatura. O deus
cananeu também tem uma relação especial com os chefes de clãs,
prometendo-lhes uma vasta descendência - exatamente o que Deus faria
depois na Bíblia ao selar uma aliança com os ancestrais dos israelitas,
Abraão, Isaac e Jacó. "El é o deus desses patriarcas", diz Christine
Hayes, professora de estudos judaicos de Yale.
Deus do deserto
Javé pode ter sido uma divindade trazida do deserto por nômades que se
embrenharam nas tribos is-raelitas, quando elas ainda estavam em
formação na região de Canaã. Aí ele se junta aos deuses cananeus, como
Baal e El, o altíssimo.
Adulto
"Israel é a minha herança", brada o impetuoso deus do deserto.
Diante dele, a assembleia dos deuses de Canaã se sente cada vez mais
intimidada. E, numa escalada de poder sem precedentes, o guerreiro chega
a ser considerado idêntico ao próprio El como criador e governador do
mundo. A própria esposa do antigo senhor dos deuses passa às mãos do
novato.
Uma ameaça pairava sobre os deuses de Canaã. Era a ambição de Javé. O
novo deus começou a buscar seu lugar entre as antigas divindades
cananeias. E teve sucesso. Com sua personalidade forte, foi ganhando
espaço dentro da mitologia israelita, tomando o terreno dos deuses
criados pelos povos cananeus.
A maior prova disso está em outro texto poético dos mais antigos da
Bíblia, o Salmo 82. Ele nos apresenta o chamado "conselho divino": uma
espécie de Câmara dos Deputados dos deuses, na qual eles se reúnem para
discutir assuntos importantes - um indício de que o Salmo foi escrito
antes do próprio início da Bíblia, que já começa apresentando Javé como
Deus único. A ideia, ali, é que El preside o conselho e seus filhos ou
subordinados discursam. Lá, Javé aparentemente perde a paciência: "Deus
se levanta no conselho divino,/em meio aos deuses ele julga:/"Até quando
vocês julgarão injustamente,/sustentando a causa dos injustos? (...)
"Eu declaro: embora vocês sejam deuses,/e todos filhos do
Altíssimo,/morrerão como qualquer homem". Trocando em miúdos menos
rebuscados: "Quem manda aqui sou eu".
É difícil dizer a que período da história israelita corresponde esse
momento em que, na imaginação religiosa das pessoas, Javé começou a
impor sua vontade perante os deuses cananeus. Talvez o fenômeno tenha a
ver com a consolidação de Israel como povo distinto dos demais cananeus:
a adoração a uma divindade unicamente israelita pode ter emergido como
um elemento-chave nessa consciência "nacionalista" dos ancestrais dos
judeus.
Para completar essa nova fase na vida do Senhor, que poderíamos chamar
de começo da vida adulta, falta ainda um elemento crucial. Lembre-se do
impe-tuoso deus guerreiro Baal. O que parece ocorrer, segundo Mark Smith
e outros especialistas, é que Javé se "baaliza", virando uma mistura de
El e Baal, com ligeira predominância do segundo.
As evidências: Javé e Baal estão associados a tempestades, vulcões, fogo
e terremoto; ambos são guerreiros invencíveis que habitam o alto de
montanhas (Baal vive no lendário monte Zafon, Javé, no Sinai). E a
semelhança fica ainda mais detalhada.
Na tradição mitológica de Canaã, quem tinha triunfado contra Yamm, o
deus caótico do mar, era Baal, mas os textos da Bíblia atribuem essa
vitória - adivinhe só - a Javé. Mais sugestivo ainda: alguns Salmos
parecem ter sido originalmente hinos a Baal que acabaram adaptados para o
culto ao Senhor dos israelitas. Só que Javé vai muito além das
intervenções típicas de Baal no mundo. Na mitologia israelita, sua
grande vitória não é contra o mar, mas, sim, usando o mar como arma
contra o faraó que tinha escravizado o povo hebreu no Egito. Escolhendo o
profeta Moisés como seu emissário, conforme conta o livro bíblico do
Êxodo, o novo deus guerreiro puniu os egípcios com uma sucessão de
pragas e, como grand finale, destruiu "carros de guerra e cavaleiros" do
faraó afundando-os no mar.
A diferença em relação a Baal é que o Senhor seria capaz de agir não só
num passado mítico mas na própria história dos israelitas. Ele é
literalmente "o Senhor dos Exércitos de Israel", aquele que promete a
vitória em batalha em troca da fidelidade religiosa do povo. Daí em
diante, Deus nunca deixa de ser, em grande medida, um guerreiro.
Além de herdar o trono de El na mitologia israelita, Javé também pode
ter levado Asherah, a mulher do velho deus. Eis aí uma possibilidade
para a qual a Bíblia não prepara seus leitores. Os profetas bíblicos
vivem chiando contra o fato de que os israelitas estariam se
"prostituindo" (metaforicamente, e talvez literalmente também, via
orgias rituais) nos altares de Asherah. Mas inscrições achadas ao longo
do século 20, como as de Kuntillet Ajrud, um pit stop de caravanas no
deserto do Sinai, poderiam indicar que o deus e a deusa não eram
inimigos, e sim um casal.
As inscrições, datadas em torno do ano 800 a.C., dizem coisas como "a
bênção para ti por Javé de Teiman e sua Asherah". Seja como for, mesmo
se o casamento ainda existisse, Javé logo optaria por um divórcio -
daqueles litigiosos, barra-pesada, nos quais o pai joga os filhos contra
a mãe.
Casal maior
Inscrições do do século 9 a.C. dão a entender que Javé tinha se casado
com Asherah, a maior divindade feminina de Canaã. Era uma interpretação
israelita da mitologia da região: o deus daquele povo tomava para si a
esposa de El.
Homem feito
A última resistência da antiga assembleia divina parte de Baal. Sem
pestanejar, Javé o elimina. Asherah tem o mesmo destino trágico. Daqui
por diante ele estará sozinho nos céus. E alcança a serenidade. Hora de
fazer as pazes com a humanidade. E um sacrifício.
Seu grande momento estava chegando. Era a hora da virada para Javé. Ele
deixaria de ser mais um deus. E viraria o Único. No mundo real, esse
momento teve data: foi a reforma religiosa introduzida por Josias (649 -
609 a.C.), rei de Judá. Antes, porém, um interlúdio político.
Àquela altura, a nação das tribos israelitas de Canaã tinha sido
dividida em dois reinos. Um ao norte, o de Israel, e um ao sul, o de
Judá. E o de cima havia sido derrotado e conquistado pelo Império
Assírio.
Josias não queria o mesmo destino. E parte de seus esforços para
fortalecer a unidade interna de Judá e resistir aos invasores foi uma
maior centralização da vida religiosa do reino. Para isso, ele começou a
transformar Javé no único deus adorado por seus súditos. Por decreto:
destruindo altares a outras divindades, como El, Baal... E Asherah. Esse
foi o divórcio.
Também é possível que date do reinado de Josias o ataque final dos fiéis
de Javé ao culto a Baal, muito criticado pelos profetas dessa época.
Para a maior parte dos israelitas, não era problema adorar a Javé e a
Baal ao mesmo tempo. É que outra especialidade do antigo deus cananeu
era a agricultura - ele mandava chuva para regar as colheitas. Até
então, embora Javé tivesse tomado conta das funções guerreiras de Baal,
nada indicava que ele também pudesse bancar o regador de plantas. Mas os
profetas israelitas passam, então, a afirmar que o mandachuva era ele.
Essa expulsão definitiva de Baal do panteão explica o episódio do
bezerro de ouro durante a passagem dos israelitas pelo deserto. Para
quem não se lembra: o povo de Deus, cansado de esperar que Moisés volte
do monte Sinai, constrói uma estátua de ouro de um bezerro (emblema de
Baal). Tanto Moisés quanto Javé ficam enfurecidos, e milhares de
israelitas morrem como punição pela infidelidade do povo.
As ideias de Josias marcariam para sempre a visão que temos de Deus. E
mais ainda depois que esse rei acabou morto. Na geração dos filhos do
monarca reformista, o reino de Judá seria riscado do mapa e Jerusalém, a
capital, acabaria conquistada pela Babilônia. Mas a adversidade do povo
teve o efeito oposto em sua fé. No mundo mitológico, Javé se fortalecia
como nunca. Com a nação agora indefesa militarmente, era a hora de
reafirmar que o deus da nação, ao menos, era todo-poderoso. Nisso os
profetas israelistas diziam que só Javé tinha existência, vida e poder;
os outros deuses eram meras imagens de pedra, metal ou madeira. Era nada
menos que a inauguração do monoteísmo: um momento tão importante na
história da espiritualidade quanto a adoção do cristianismo como
religião oficial do Império Romano seria bem mais tarde. E era esse Javé
único que iria para a Bíblia. E se tornaria a imagem de Deus no mundo
ocidental.
Um Deus, agora, não só dos israelitas. Mas da humanidade inteira. O Deus
que criou o mundo, que fez o homem à sua imagem e semelhança. E que, de
certa forma, era a imagem e semelhança do Javé pré-Bíblia: o Deus
guerreiro, militar, que pune com rigidez os erros de seus adoradores. O
Velho Testamento está recheado de castigos divinos: dos mais leves, como
transformar o fiel Jó, um milionário, em um mendigo, como um teste para
sua fé, até o dilúvio universal - praticamente um restart no mundo
depois de ter concluído que a humanidade não tinha mais jeito. A
justificativa para tal comportamento está na própria história de Israel.
A ideia era acreditar que os maus bocados pelos quais a nação passou
nas mãos de assírios e babilônios eram provações divinas, que, se o povo
mantivesse sua fé, tudo acabaria bem.
Mas Deus surge na Bíblia como algo mais complexo que um mero feitor.
Usando os paralelos deste texto, seria como se Ele tivesse amadurecido
depois que Josias e os profetas o aclamam Deus único. Javé fica menos
humano, menos falível. Passa a ser uma entidade transcendental de fato.
Começa a afirmar aos seres humanos que "os meus caminhos não são os seus
caminhos" - a ideia hoje familiar de que Deus escreve certo por linhas
tortas.
Mas o caráter divino só se completaria mesmo no século 1. O primeiro
século depois de seu filho, quando o Novo Testamento foi escrito. É a
metamorfose mais radical do guerreiro Javé. Encarnado na figura de
Jesus, Deus apresenta uma nova solução para a humanidade. Em vez de
castigar ou destruir os homens mais uma vez, decide purgar os pecados
dos mortais com outro sacrifício: o Dele próprio. Morre o corpo do Deus
encarnado, não o espírito divino. Este, agora mais sereno, continuou
zelando por nós. E assim será. Até o fim dos tempos. E acaba assim a
nossa história, certo?
Claro que não. A saga de Javé é só um dos reflexos de uma epopeia maior:
a da humanidade buscando um sentido para a existência. Nesse aspecto,
continuamos tão perdidos quanto os antigos que não sabiam por que o
trovão trovejava ou o que as estrelas faziam pregadas no céu. Ainda não
sabemos por que estamos aqui. E a única certeza é que vamos continuar
buscando respostas. Seja o que Deus quiser.
Único
Javé chega ao auge conhecendo cada detalhe do passado e do futuro. Sua figura lembra El. Mas agora Ele está só.
Para saber mais
The Early History of God
Mark Smith, Wm. B. Eerdmans Publishing.
Deus, uma Biografia
Jack Miles, Companhia das Letras.